Especial histórico • atualizado em 28 de julho de 2026
História do Mato Grosso do Sul Atualizada 2026
Da presença humana há pelo menos 8,4 mil anos à construção de um estado na fronteira — e à ligação física da ponte da Rota Bioceânica: uma narrativa documentada sobre território, povos, conflitos, culturas e transformações.
A história de Mato Grosso do Sul não começou em 11 de outubro de 1977. Naquela data nasceu juridicamente uma unidade da Federação; o território, porém, já guardava milênios de experiências humanas, civilizações indígenas, caminhos fluviais, disputas imperiais, redes comerciais, migrações e conflitos pela terra. Contar essa história apenas a partir da divisão de Mato Grosso seria confundir a certidão de nascimento do estado com a biografia inteira de sua sociedade.
Este especial recompõe a longa duração do espaço hoje sul-mato-grossense. A narrativa atravessa os sítios arqueológicos do Pantanal, os povos Guató, Kadiwéu, Terena, Ofaié e Guarani, as missões do Itatim, as monções, os fortes de fronteira, a Guerra contra o Paraguai, a exploração da erva-mate, o porto de Corumbá, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, as colônias agrícolas, o movimento divisionista, a instalação do estado, a redemocratização e as mudanças econômicas e ambientais do século XXI.
Há uma escolha editorial importante: esta não é uma galeria de “heróis” isolados. As decisões de presidentes, governadores, militares e empresários aparecem, mas também o trabalho de indígenas, mulheres, pessoas negras escravizadas e livres, camponeses, peões, ferroviários, migrantes e moradores da fronteira. Sempre que há controvérsia, o texto distingue fato documentado, memória política e interpretação historiográfica. Os dados de população e economia foram atualizados com as bases oficiais disponíveis até 28 de julho de 2026.
1. Um território moldado pelas águas e pelas fronteiras
Situado no centro geográfico da América do Sul, Mato Grosso do Sul é uma espécie de dobradiça territorial. Ao norte, liga-se a Mato Grosso e Goiás; a leste, a Minas Gerais e São Paulo; ao sul, ao Paraná; a oeste, encontra Bolívia e Paraguai. Essa posição nunca foi apenas cartográfica. Ela definiu rotas indígenas, ambições coloniais, operações militares, circuitos comerciais, migrações e, hoje, projetos logísticos de escala continental.
O relevo separa duas grandes vertentes hidrográficas. A oeste, rios como Paraguai, Miranda, Aquidauana, Taquari, Negro e Apa alimentam a Bacia do Alto Paraguai e o pulso de inundações do Pantanal. A leste e ao sul, Paraná, Paranaíba, Sucuriú, Pardo, Ivinhema, Amambai e Iguatemi integram a Bacia do Paraná. Entre ambas aparecem serras, chapadões e divisores de água que condicionaram deslocamentos. Antes das rodovias, os rios eram caminhos, despensas, marcos políticos e sistemas de comunicação.
Os três biomas presentes no estado não são compartimentos fechados. O Cerrado ocupa extensos planaltos e chapadas; o Pantanal forma uma planície inundável regida por cheias e secas; fragmentos e transições da Mata Atlântica persistem sobretudo no sul e sudeste, na bacia do Paraná. Existem ainda ecótonos — zonas em que vegetações e espécies se misturam — e formações como chaco, florestas estacionais, campos e veredas. A pecuária, a agricultura mecanizada, as hidrelétricas, a mineração, o turismo e a expansão urbana transformaram essas paisagens em ritmos diferentes.
“Fronteira” também possui dois sentidos. É limite internacional, materializado em marcos, alfândegas, pontes e cidades-gêmeas; e é zona de convivência, em que línguas, parentescos, mercadorias, músicas e alimentos atravessam a linha política. Ponta Porã e Pedro Juan Caballero formam uma conurbação praticamente contínua. Corumbá se articula com Puerto Quijarro e Puerto Suárez. Porto Murtinho olha para Carmelo Peralta através do Paraguai. Nesses lugares, português, espanhol e guarani convivem com sotaques e vocabulários próprios.
A geografia ajuda a entender por que o poder colonial demorou a fixar-se, por que a região foi disputada por Portugal e Espanha, por que Corumbá enriqueceu com a navegação e por que Campo Grande cresceu com a ferrovia. Mas geografia não é destino. Cada rota e cada cidade nasceram de escolhas humanas, relações de poder e conhecimento acumulado por populações que aprenderam a viver em planícies inundáveis, cerrados sazonais e fronteiras abertas.
2. O passado anterior aos documentos: pelo menos 8,4 mil anos de presença humana
A documentação escrita europeia cobre apenas uma fração mínima da história regional. A arqueologia do Pantanal e dos planaltos mostra que grupos humanos já ocupavam áreas hoje pertencentes a Mato Grosso do Sul milhares de anos antes das primeiras expedições ibéricas. Em sítios associados aos aterros conhecidos como aterros indígenas ou mounds, pesquisas registraram datações próximas de 8.400 e 8.200 anos antes do presente. Isso não significa que uma única cultura tenha permanecido inalterada por todo esse tempo; significa que o Pantanal foi conhecido, usado e transformado por sucessivas populações desde o início do Holoceno.[5]
Os aterros são elevações construídas ou ampliadas sobre áreas sujeitas a inundação. Serviram em épocas distintas como moradia, acampamento, espaço de atividades e lugar funerário. Sua existência derruba a imagem antiga de um Pantanal “vazio” ou intocado. O ambiente alagável exigia conhecimento fino do calendário das águas, dos peixes, dos animais, das plantas e das rotas de canoa. A paisagem é natural e, ao mesmo tempo, histórica.
Outros sítios contêm instrumentos líticos, cerâmica, restos alimentares, sepultamentos e inscrições rupestres. Em Alcinópolis, Coxim, Corumbá, Ladário, Aquidauana, Miranda, Porto Murtinho e outras áreas, o registro arqueológico documenta ocupações variadas. Datas, filiações e interpretações ainda são debatidas, porque sítios podem ter sido reutilizados por povos diferentes, e estilos cerâmicos não equivalem automaticamente a identidades étnicas atuais.
Pesquisas situam presenças associadas à tradição cerâmica guarani no atual território sul-mato-grossense em uma faixa aproximada de 1.300 a 300 anos antes do presente. Esses grupos dominavam agricultura, manejo florestal, cerâmica e redes de circulação. Nas margens de grandes rios e em áreas de terra roxa, aldeias articulavam roças, matas, espaços rituais e caminhos. A expansão guarani não foi um movimento único: envolveu deslocamentos, encontros, guerras, alianças e diferenciação interna.
A preservação desse patrimônio enfrenta erosão, queimadas, alagamentos permanentes por barragens, obras, saque e expansão econômica. Também enfrenta um problema intelectual: durante décadas, artefatos indígenas foram tratados como testemunhos de povos desaparecidos. Hoje, pesquisas com participação comunitária enfatizam continuidade, memória e direito. Os habitantes indígenas contemporâneos não são “fósseis culturais”; são sociedades vivas que interpretam o próprio passado e produzem futuro.
3. Povos originários: diversidade, território e protagonismo
Quando os europeus chegaram à América meridional, encontraram um mosaico de povos, não uma população homogênea. Nomes registrados em crônicas coloniais variam, mudam de grafia e às vezes foram impostos por adversários ou administradores. Há continuidades, fusões, deslocamentos e ressurgimentos. Por isso, uma lista contemporânea deve servir de orientação, não de caixa fixa.
Uma obra coletiva de referência da Universidade Federal da Grande Dourados reúne capítulos sobre Atikum, Guarani Kaiowá, Guarani Ñandeva, Guató, Kadiwéu, Kamba, Kinikinau, Ofaié e Terena em Mato Grosso do Sul.[4] Outras classificações podem reunir Kaiowá e Ñandeva sob a designação Guarani, ou destacar autodenominações e situações específicas. O essencial é reconhecer histórias próprias.
Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva
No sul do estado, comunidades Kaiowá e Guarani Ñandeva organizavam — e continuam organizando — a vida em torno de relações de parentesco, espiritualidade, mobilidade e territórios conhecidos como tekoha, lugares onde um modo de ser pode realizar-se. A agricultura de milho, mandioca, batata, feijões e outras espécies convivia com caça, coleta, pesca e intercâmbios. A fronteira Brasil–Paraguai cortou redes anteriores aos estados nacionais.
A expansão da erva-mate, a colonização agrícola, a titulação privada e a política de pequenas reservas comprimiram territórios. No século XX, comunidades foram removidas e concentradas; no final do mesmo século e no XXI, intensificaram-se mobilizações de retorno e retomadas. Conflitos fundiários, assassinatos, insegurança alimentar e altos índices de sofrimento social não são “problemas culturais”: têm raízes históricas na perda de terras e na violência, embora cada comunidade possua trajetórias e condições diferentes.
Terena e Kinikinau
Os Terena, de língua aruak, têm forte presença nas regiões de Aquidauana, Miranda, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque, Anastácio e Campo Grande. Foram agricultores, comerciantes e negociadores, participaram de acontecimentos da Guerra contra o Paraguai e construíram variadas formas de inserção regional. A aldeia urbana Marçal de Souza, em Campo Grande, tornou-se símbolo de uma presença indígena que nunca ficou restrita ao campo.
Os Kinikinau, também associados ao tronco aruak, foram declarados “extintos” por agentes estatais durante parte do século XX, classificação que sua própria existência desmente. Famílias mantiveram memória e identidade, muitas vezes convivendo em terras indígenas com outros povos, e reivindicaram reconhecimento. O caso mostra como censos e burocracias podem produzir invisibilidade sem apagar pessoas.
Kadiwéu, Guató, Ofaié, Kamba e Atikum
Os Kadiwéu descendem de populações Mbayá-Guaikuru conhecidas por sua tradição equestre, capacidade militar, diplomacia e artes gráficas. Seu território na Serra da Bodoquena e no Pantanal foi atravessado por tratados, conflitos e concessões. A participação de guerreiros Kadiwéu ao lado do Império brasileiro na guerra do século XIX tornou-se argumento em disputas posteriores pela terra, mas a história do povo não se resume a esse serviço militar.
Os Guató desenvolveram uma relação profundamente fluvial com o Pantanal, deslocando-se por canoas entre ilhas, baías e margens. Também foram declarados extintos por órgãos oficiais antes de reorganizarem publicamente sua identidade e reivindicarem território. Os Ofaié, ligados historicamente às bacias orientais, enfrentaram massacres, epidemias, dispersão e perda territorial. Kamba e Atikum representam outras histórias de mobilidade, fronteira e afirmação identitária dentro do estado.
O Censo de 2022 registrou 116.469 pessoas indígenas em Mato Grosso do Sul e 70.034 residentes em terras indígenas. O estado aparece entre as maiores populações indígenas do país.[6] Esses números são fundamentais, mas não captam toda a realidade: autodeclaração, deslocamento urbano, terras em diferentes fases de regularização e mudanças metodológicas afetam comparações. O dado contemporâneo encerra um equívoco persistente: indígenas não pertencem apenas ao passado da história sul-mato-grossense; são parte decisiva de seu presente.
4. Itatim, missões e bandeiras: choque de impérios e sociedades
Nos séculos XVI e XVII, grande parte do atual sul de Mato Grosso do Sul inseria-se na órbita de Assunção, fundada pelos espanhóis em 1537. Exploradores e colonos percorreram os rios Paraguai, Paraná e seus afluentes, buscaram metais, abriram encomiendas e tentaram controlar trabalho indígena. A região chamada Itatim, de limites variáveis, tornou-se área de aldeias, estâncias e missões vinculadas à Província Jesuítica do Paraguai.
Jesuítas fundaram reduções entre populações guarani com objetivos religiosos, econômicos e políticos. As missões reuniam habitantes em núcleos administrados, introduziam novas rotinas e defendiam, ao menos formalmente, os indígenas da escravização por colonos. Isso não as torna espaços de igualdade: conversão, disciplina, reorganização do trabalho e concentração populacional alteraram profundamente as sociedades locais. Ao mesmo tempo, indígenas negociaram, adaptaram, resistiram ou abandonaram missões conforme seus próprios interesses.
A partir da década de 1630, bandeirantes paulistas atacaram reduções e aldeias em busca de cativos. As ofensivas sobre o Guairá, o Itatim e áreas vizinhas provocaram mortes e deslocamentos em massa. Epidemias de origem europeia agravaram o colapso demográfico. Algumas missões recuaram em direção ao Paraguai; grupos guarani se dispersaram por matas e campos, enquanto outros permaneceram no território, longe do controle colonial direto.
O episódio costuma ser contado como choque entre “portugueses” e “espanhóis”, mas a maior parte dos combatentes, carregadores, guias, trabalhadores e vítimas era indígena. Alianças não obedeciam automaticamente às coroas. Povos rivais podiam associar-se a europeus; comunidades missioneiras defendiam-se com armas; bandeiras dependiam de conhecimento indígena. A fronteira colonial nasceu dessas combinações instáveis.
Após a destruição de muitas reduções, a presença espanhola efetiva enfraqueceu em parte da região oriental, mas a disputa imperial não acabou. Fortificações, tratados e expedições do século XVIII seriam tentativas de transformar áreas de circulação em soberania territorial. A memória do Itatim permanece importante porque mostra uma realidade anterior à fronteira moderna: o sul do atual estado esteve ligado por séculos a redes paraguaias e platinas.
5. Monções, Camapuã e a criação da Capitania de Mato Grosso
A descoberta de ouro na região de Cuiabá, no início do século XVIII, estimulou uma rota extraordinária de navegação interior. As monções partiam geralmente da capitania de São Paulo e percorriam uma cadeia de rios: Tietê, Paraná, Pardo, travessias terrestres na área de Camapuã, Coxim, Taquari, Paraguai e, por fim, Cuiabá. Canoa após canoa transportava gente, ferramentas, sal, tecidos, armas, alimentos, notícias e autoridade colonial.
Camapuã tornou-se ponto estratégico porque permitia vencer o divisor de águas entre as bacias do Paraná e do Paraguai. O varadouro exigia descarregar embarcações, transportar cargas por terra e reorganizar a expedição. Uma fazenda e pouso apoiavam viajantes, produziam alimentos e animais de carga. A rota era longa, sazonal e perigosa: corredeiras, doenças, fome, naufrágios e ataques marcavam o percurso.[10]
As monções não atravessaram um vazio. Cruzaram territórios indígenas e desencadearam confrontos, negociações, aprisionamentos e trocas. Payaguá, Guaikuru e outros povos controlavam trechos fluviais e desafiaram expedições. Guias e remadores indígenas ou mamelucos eram indispensáveis. O conhecimento sobre canais, épocas de cheia, portagens e recursos locais sustentava uma empresa que a narrativa oficial muitas vezes creditou apenas aos comandantes.
Em 9 de maio de 1748, a Coroa portuguesa criou a Capitania de Mato Grosso, separada de São Paulo. A decisão pretendia administrar as minas, afirmar a fronteira ocidental e organizar a defesa diante da Espanha. Vila Bela da Santíssima Trindade tornou-se capital no extremo oeste, enquanto Cuiabá permaneceu centro econômico importante. O território que hoje é Mato Grosso do Sul fazia parte dessa enorme capitania, sem constituir unidade administrativa própria.
Os tratados de Madri, de 1750, e de Santo Ildefonso, de 1777, tentaram redesenhar limites luso-espanhóis com base em ocupação e acidentes geográficos. Na prática, mapas imprecisos e presença desigual mantiveram zonas contestadas. O princípio do uti possidetis — reconhecer a posse efetiva — estimulou Portugal a construir fortes e povoações no rio Paraguai. Assim, as monções, inicialmente orientadas às minas, ajudaram a instalar um corredor político que mais tarde sustentaria a fronteira brasileira.
6. Fortes e povoações: Coimbra, Corumbá e Miranda
Na segunda metade do século XVIII, o governo de Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres intensificou a ocupação portuguesa do oeste. Em 1775, foi estabelecido o Forte de Coimbra, numa posição estreita e elevada à margem direita do rio Paraguai. Sua função era observar a navegação, impedir avanço espanhol e afirmar soberania. Construções iniciais de madeira e terra foram substituídas ou ampliadas; o conjunto que atravessou os séculos resultou de diferentes campanhas de obra.
Em 1778, o Arraial de Nossa Senhora da Conceição de Albuquerque foi fundado onde se desenvolveu Corumbá. A posição num barranco do rio Paraguai oferecia porto, observação e conexão com o interior. O nome Corumbá se consolidaria no século XIX, e a povoação seria elevada a cidade em 1878. A mesma estratégia criou, também em 1778, o Presídio de Nossa Senhora do Carmo do Rio Mondego, origem de Miranda.[11]
“Presídio”, no vocabulário da época, significava posto militar fortificado, não apenas cadeia. Ao redor dessas posições surgiram casas, capelas, roças, criação de gado e pequenos comércios. Soldados recebiam soldos irregulares; famílias enfrentavam isolamento e doenças; administradores dependiam de indígenas aliados, pessoas negras, mestiças e colonos pobres para produzir e transportar mantimentos.
As fundações oficiais não foram pontos inaugurais absolutos. Ocupações indígenas e rotas anteriores continuaram a existir. A instalação de fortes redefiniu relações: incorporou territórios ao projeto português, provocou conflitos, abriu espaços de negociação e lançou bases para núcleos urbanos. Fortes são monumentos de engenharia, mas também documentos da militarização da fronteira.
7. O sul de Mato Grosso no Império: gado, povoamento e escravidão
Com a Independência do Brasil, em 1822, a antiga capitania transformou-se na Província de Mato Grosso. O imenso sul provincial permanecia distante de Cuiabá, com caminhos difíceis e baixa densidade de povoamento não indígena. A navegação pelo Paraguai sofria restrições diplomáticas; comunicações terrestres com São Paulo, Minas e Goiás eram longas. Essa distância alimentaria, muitas décadas depois, argumentos divisionistas.
Frentes pastoris avançaram sobre os campos do leste e do sul. Famílias procedentes de Minas Gerais, São Paulo e Goiás alcançaram áreas de Paranaíba, Santana do Paranaíba, Coxim, Miranda e outras localidades. O gado podia deslocar-se a pé por grandes extensões, transformando campos nativos e cerrados em fazendas. No Pantanal, o regime de cheias produziu sistemas próprios de manejo, com pastos sazonais, cordilheiras mais altas e longas comitivas.
A pecuária não foi uma ocupação pacífica de “terras livres”. Fazendas sobrepuseram-se a territórios indígenas, e títulos posteriores converteram circulação comunitária em propriedade privada. Posseiros, agregados, peões e pequenos produtores conviviam com grandes proprietários. Relações de compadrio, crédito e dependência ligavam a sociedade rural.
A escravidão existiu na região e não pode ser apagada sob o argumento de que havia menos cativos do que em zonas cafeeiras ou mineradoras. Registros de batismo, casamento, inventários e transações documentam mulheres, homens e crianças escravizadas em Albuquerque/Corumbá e outros núcleos. Pessoas negras trabalhavam em casas, roças, criação, transporte, construção, comércio e atividades fluviais. Formavam famílias, criavam redes de compadrio, buscavam alforria e resistiam.[14]
Também havia população negra livre e libertada. A fronteira oferecia certas possibilidades de mobilidade, mas não eliminava hierarquias de cor e condição. Durante a Guerra contra o Paraguai, homens negros livres, libertos e escravizados integraram esforços militares e logísticos. Após a Abolição, em 1888, não houve política ampla de reparação ou acesso à terra; comunidades negras rurais construíram sua permanência por parentesco, trabalho e ocupação coletiva.
Os núcleos do sul articulavam-se em direções diferentes. O oeste gravitava para o rio Paraguai e a Bacia do Prata; o leste mantinha conexões terrestres com Minas e São Paulo; o sul relacionava-se a mercados paraguaios. Essa pluralidade econômica impedia que um único centro controlasse plenamente o território.
8. A Guerra contra o Paraguai no território sul-mato-grossense
A Guerra da Tríplice Aliança — chamada no Brasil de Guerra do Paraguai — durou de 1864 a 1870 e foi o conflito internacional mais destrutivo da América do Sul. Suas causas envolveram a instabilidade política do Uruguai, disputas de navegação e fronteira, projetos de poder dos governos de Paraguai, Brasil e Argentina e o equilíbrio regional no estuário platino. Explicações que atribuem tudo a uma única potência estrangeira ou à personalidade de um governante simplificam um debate historiográfico amplo.
A invasão da Província de Mato Grosso
Em dezembro de 1864, forças paraguaias capturaram o navio brasileiro Marquês de Olinda e avançaram contra a Província de Mato Grosso. A ofensiva pelo rio Paraguai atingiu o Forte de Coimbra, evacuado após resistência diante da superioridade inimiga. Albuquerque/Corumbá foi ocupada. Uma coluna terrestre avançou por áreas de Dourados, Miranda, Nioaque e Coxim.
No posto militar de Dourados, o tenente Antônio João Ribeiro e sua guarnição foram mortos em combate. O episódio tornou-se símbolo patriótico, mas precisa ser situado no conjunto maior: civis fugiram, aldeias e fazendas foram desorganizadas, animais e provisões foram requisitados, epidemias circularam, e grupos indígenas participaram em lados e circunstâncias diversas. Corumbá permaneceu sob ocupação paraguaia entre 1865 e 1867.
Os Kadiwéu e outros grupos Guaikuru combateram em aliança com o Brasil; Terena também atuaram como guias, combatentes, fornecedores e protetores de rotas. Essa colaboração resultou de estratégias próprias, antigas rivalidades e promessas estatais, não de uma adesão abstrata a uma nacionalidade já pronta. As perdas e deslocamentos afetaram comunidades inteiras.
A Retirada da Laguna
Para responder à invasão, o Império organizou uma coluna que partiu do Sudeste e atravessou Goiás rumo ao sul de Mato Grosso. A marcha levou muitos meses, sofreu com comando instável, falta de suprimentos e doença. Em 1867, uma força comandada pelo coronel Carlos de Morais Camisão entrou em território paraguaio pela área da fazenda Laguna, mas não conseguiu sustentar a ofensiva.
A retirada, iniciada em maio, transformou-se em desastre. Tropas paraguaias pressionaram a coluna e empregaram fogo em campos; cólera, fome e exaustão mataram soldados e acompanhantes. O guia José Francisco Lopes, conhecedor da região, conduziu os sobreviventes, mas também morreu de cólera. Camisão e o comandante da artilharia, Juvêncio Cabral de Menezes, faleceram. Alfredo d’Escragnolle Taunay, engenheiro da expedição, registrou a experiência no livro A Retirada da Laguna, publicado inicialmente em francês e depois em português.[16]
A obra de Taunay é fonte literária e histórica valiosa, mas não contém a experiência completa. Mulheres acompanharam a coluna, cuidaram de doentes, prepararam alimentos e enfrentaram ataques. Sertanejos, indígenas e pessoas negras livres, libertas ou escravizadas sustentaram a logística. Alguns foram nomeados; muitos permaneceram anônimos. Uma história crítica não nega a coragem individual, mas pergunta quem foi incluído na categoria de herói e quem desapareceu do monumento.
A retomada de Corumbá e os efeitos duradouros
Em junho de 1867, uma operação brasileira retomou Corumbá. A permanência na cidade foi dificultada pela varíola, e a região continuou vulnerável até o final do conflito. O Tratado da Tríplice Aliança e os acordos posteriores definiram fronteiras, ampliaram a navegação e consolidaram a soberania brasileira sobre áreas disputadas ao sul do Apa.
A guerra deixou população dispersa, propriedades destruídas, doenças e traumas. Também aumentou a presença militar, deu relevância nacional a localidades do sul de Mato Grosso e abriu um novo ciclo de integração pelo rio Paraguai. Na memória oficial, batalhas e personagens batizaram municípios, ruas, quartéis e escolas: Antônio João, Guia Lopes da Laguna, Jardim, Nioaque e Dourados carregam marcas dessa paisagem de guerra. Na memória paraguaia, os mesmos lugares podem representar invasão, derrota e catástrofe populacional. Em uma fronteira compartilhada, compreender as duas perspectivas é condição de maturidade histórica.
9. Depois da guerra: reconstrução, navegação e a era do porto de Corumbá
O fim da guerra não restaurou simplesmente a ordem anterior. A livre navegação internacional do rio Paraguai, já negociada antes do conflito e consolidada no pós-guerra, conectou Mato Grosso a Buenos Aires, Montevidéu e ao Atlântico. Como o caminho fluvial era por muito tempo mais eficiente do que as comunicações terrestres com o litoral brasileiro, Corumbá converteu-se na principal porta de entrada e saída da província.
Vapores transportavam charque, couros, ipecacuanha, erva-mate, minérios e outros produtos; no sentido inverso chegavam alimentos industrializados, tecidos, ferramentas, louças, bebidas e ideias. Casas comerciais mantidas por brasileiros, portugueses, italianos, espanhóis, árabes e comerciantes de outras origens ocuparam o Porto Geral. Estaleiros, armazéns, consulados e hotéis compuseram uma cidade cosmopolita para os padrões regionais.[17]
O dinamismo não eliminou desigualdades. Trabalhadores portuários, marinheiros, lavadeiras, domésticas, artesãos e vendedores sustentavam o comércio em condições muito diferentes das elites importadoras. A escravidão persistiu até 1888. Enchentes, epidemias e oscilação dos mercados internacionais afetavam a vida cotidiana. A cidade possuía fachadas europeias e relações sociais próprias de uma fronteira escravista e pós-escravista.
A pecuária pantaneira se reorganizou. Grandes propriedades recompuseram rebanhos e exploraram campos nativos. Saladeiros e charqueadas processaram carne; a navegação permitiu exportar gado e derivados. No sul, a demarcação definitiva com o Paraguai e a abertura de concessões públicas criaram condições para uma economia centrada na erva-mate.
Em 1878, Corumbá recebeu categoria de cidade. Campo Grande, fundada como povoado no último quarto do século XIX e elevada a município em 1899, ainda era menor, mas sua posição no divisor de águas a transformaria em entroncamento terrestre. Dourados, Ponta Porã, Aquidauana e outros núcleos cresceriam em ritmos próprios. O mapa urbano do século XX estava em formação.
10. Erva-mate, terra e trabalho: o império da Companhia Mate Laranjeira
Os ervais nativos se estendiam pelo sul de Mato Grosso, em território tradicional de populações Guarani e Kaiowá e em áreas disputadas antes da definição da fronteira. Depois da guerra, Tomás Laranjeira obteve autorização para explorar erva-mate em terras devolutas. Em 1882, uma concessão imperial formalizou o negócio; em 1891 surgiu a Companhia Mate Laranjeira, associada a capital regional e, em diferentes momentos, ao grupo argentino Francisco Mendes Gonçalves.
A empresa reuniu concessões de enorme extensão e dominou transporte, beneficiamento e comercialização. A erva seguia por portos no rio Paraguai ou em direção ao Paraná, abastecendo mercados platinos. Estradas, ranchos, portos, oficinas, carreteiros e tropas formaram uma infraestrutura privada em região onde a administração pública era rarefeita. A companhia tornou-se poder econômico e político, influenciando autoridades e dificultando o acesso de concorrentes e pequenos ocupantes aos ervais.[18]
O monopólio legal foi restringido e encerrado em etapas — uma data única esconde mudanças contratuais —, mas a influência empresarial ultrapassou o período das concessões exclusivas. A abertura da navegação, alterações fiscais, competição, colonização e novas estradas reorganizaram o setor ao longo da primeira metade do século XX.
O trabalho nos ervais
A produção dependia de trabalhadores chamados mineiros, que cortavam ramos, sapecavam folhas, secavam e preparavam fardos; barbaquazeiros, carreteiros, peões e outros ofícios completavam o ciclo. Muitos vinham do Paraguai; muitos eram Guarani e Kaiowá. A fronteira linguística e nacional era porosa, e trabalhadores circulavam de acordo com safras, parentesco e recrutamento.
Sistemas de adiantamento prendiam famílias por dívida. Armazéns forneciam mercadorias a preços controlados; transporte e alimentação eram descontados; violência privada disciplinava a mão de obra. A historiografia compara essas relações a formas de servidão por dívida, sem confundi-las automaticamente com escravidão legal. Fugas, trocas de patrão, comércio paralelo e redes comunitárias constituíam maneiras de negociação e resistência.[19]
A memória regional oscilou entre celebrar a empresa como desbravadora e denunciá-la como “estado dentro do estado”. As duas imagens captam apenas partes. A Mate Laranjeira abriu infraestrutura e inseriu a região em mercados amplos, mas fez isso apropriando-se de recursos e territórios coletivos, concentrando concessões e explorando trabalho em condições duras. O resultado histórico foi simultaneamente integração econômica e expropriação.
A disputa contra o domínio da companhia aproximou comerciantes, fazendeiros, colonos e políticos interessados em abrir terras. Esse grupo não defendia necessariamente reforma agrária ou direitos indígenas; em muitos casos pretendia substituir uma grande concessão por propriedades privadas. Ainda assim, a campanha “pela terra livre” alimentou identidades políticas do sul e se conectou ao futuro divisionismo.
11. A ferrovia muda o eixo: ascensão de Campo Grande e novos migrantes
No começo do século XX, o governo federal decidiu construir a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, ligando Bauru, no interior paulista, ao rio Paraguai. A linha avançou a partir de São Paulo e atravessou o leste de Mato Grosso. Em 1914, os trilhos alcançaram Campo Grande e Porto Esperança, nas proximidades de Corumbá. Décadas depois, a conexão ferroviária chegaria diretamente a Corumbá, beneficiada por novas obras e pela ponte sobre o rio Paraguai.
A ferrovia reduziu o tempo de viagem para São Paulo, facilitou entrada de produtos, escoamento de gado e circulação de pessoas. Três Lagoas, Água Clara, Ribas do Rio Pardo, Campo Grande, Aquidauana e Miranda cresceram ao redor de estações, oficinas e pátios. Trabalhadores ferroviários formaram bairros, associações, clubes e tradições políticas. Telégrafo, correio e novos serviços acompanharam os trilhos.
A mudança logística alterou a hierarquia urbana. Corumbá não entrou em colapso imediato e continuou importante como porto, centro pecuário, militar e mineral, mas perdeu a exclusividade da conexão externa. Campo Grande, situada no centro do sul mato-grossense, passou a articular trilhos e estradas de boi. Sediou órgãos públicos, bancos, comércio atacadista, quartéis e escolas. Sua condição de principal cidade do sul sustentaria a escolha como capital do futuro estado.
A construção da ferrovia envolveu desapropriação, doenças, acidentes e trabalho pesado. Populações indígenas viram novas frentes atravessarem seus territórios. Empreiteiros recrutaram migrantes de várias origens; japoneses, árabes, europeus, paulistas, mineiros e outros grupos se estabeleceram em cidades da linha. A estação foi ao mesmo tempo porta de oportunidade e instrumento de ocupação estatal.
A partir da segunda metade do século XX, rodovias e caminhões assumiram crescente parcela do transporte. O serviço ferroviário de passageiros foi interrompido, e partes do patrimônio ficaram abandonadas antes de movimentos de preservação. O tombamento do complexo de Campo Grande reconheceu que armazéns, oficinas, vila operária e trilhos não são ruínas isoladas: constituem um conjunto que explica a urbanização regional.[21]
12. Marcha para o Oeste, colonização e a formação de Dourados
Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas lançou a “Marcha para o Oeste”, programa político e simbólico para ocupar fronteiras internas, nacionalizar áreas de forte influência estrangeira e ampliar a produção agrícola. A retórica apresentava o interior como vazio disponível, apagando povos indígenas, posseiros e trabalhadores já existentes. No sul de Mato Grosso, a política atingiu diretamente os ervais e a faixa de fronteira.
Em 1943, o Decreto-Lei nº 5.941 criou a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, a CAND. O projeto distribuiu lotes, em geral pequenos para o padrão regional, e atraiu famílias de várias partes do Brasil. Nordestinos, paulistas, paranaenses, mineiros, gaúchos e descendentes de imigrantes abriram roças, estradas e povoados. A administração prometia terra, ferramentas e apoio, mas infraestrutura e titulação nem sempre acompanharam o ritmo da ocupação.[22]
Municípios como Douradina, Fátima do Sul, Vicentina, Glória de Dourados e Deodápolis relacionam sua formação ao processo colonial e aos desmembramentos posteriores. Dourados consolidou-se como centro regional de comércio, serviços, educação e agroindústria. A pequena produção diversificada conviveu, ao longo do tempo, com concentração fundiária e mecanização.
A CAND e projetos privados transformaram a cobertura vegetal e a posse da terra. Territórios Guarani e Kaiowá foram loteados como se fossem devolutos; famílias indígenas foram deslocadas para reservas ou permaneceram como trabalhadores em propriedades que incidiam sobre antigos tekoha. O mesmo processo que certas memórias familiares narram como conquista da terra aparece, para outras comunidades, como expulsão. Uma história comum precisa comportar ambas as experiências, sem igualar o poder de quem recebeu título ao de quem foi removido.
No vale do Ivinhema, projetos da Companhia Viação São Paulo–Mato Grosso e de colonizadoras particulares estimularam Bataguassu, Batayporã, Nova Andradina e outros núcleos. No norte e nordeste, frentes pecuárias e agrícolas avançaram de Goiás, Minas e São Paulo. A multiplicação de municípios aproximou serviços públicos e consolidou elites locais, ao mesmo tempo que fragmentou administrativamente o território.
13. O Território Federal de Ponta Porã: uma divisão antes da divisão
Em 13 de setembro de 1943, o Decreto-Lei nº 5.812 criou o Território Federal de Ponta Porã, desmembrando municípios do sul de Mato Grosso. A medida fazia parte de uma estratégia do governo Vargas para administrar diretamente áreas de fronteira durante a Segunda Guerra Mundial. O novo território abrangia Ponta Porã, Dourados, Bela Vista, Miranda, Nioaque, Maracaju e Porto Murtinho, com alterações administrativas no curto período de existência.[49]
A capital foi inicialmente estabelecida em Ponta Porã; decisões posteriores deslocaram provisoriamente funções para Maracaju e voltaram a reorganizar a sede. A instabilidade revela que não havia consenso sobre o centro político regional. Governadores eram nomeados pela União, e a autonomia local era limitada.
A Constituição de 1946 extinguiu o território e reincorporou sua área a Mato Grosso. A experiência durou cerca de três anos, mas deixou precedentes administrativos. Demonstrou que o governo federal considerava possível separar a faixa sul por razões geopolíticas. Também forneceu cargos, redes e memória a políticos que depois defenderiam um estado próprio.
Não se deve, porém, tratar Ponta Porã como antecessor linear de Mato Grosso do Sul. Sua área era menor, seu estatuto era federal e sua criação ocorreu sob ditadura, sem a autonomia de uma unidade estadual. O episódio pertence a outra lógica institucional, embora tenha reforçado a ideia de que o sul possuía problemas de administração específicos.
14. Reservas, confinamento e retomadas indígenas no século XX
Entre as décadas de 1910 e 1920, o Serviço de Proteção aos Índios delimitou pequenas reservas para concentrar populações Guarani e Kaiowá no sul de Mato Grosso. A política partia de uma visão assimilacionista: liberar extensões territoriais para colonização e transformar indígenas em trabalhadores nacionais. Reservas não correspondiam necessariamente aos tekoha de cada comunidade, nem comportavam seus sistemas de mobilidade, agricultura e organização social.
Fazendas, a Mate Laranjeira, a Colônia Agrícola Nacional de Dourados e colonizadoras privadas ocuparam áreas tradicionais. Remoções ocorreram por pressão econômica, ação estatal e violência. Algumas famílias permaneceram em fundos de fazenda; outras foram levadas a reservas já habitadas, produzindo superlotação. O termo “confinamento”, usado por estudiosos, descreve a compressão territorial e não uma suposta incapacidade indígena de adaptação.
Os Terena também perderam terras e enfrentaram demarcações insuficientes. Kadiwéu, Guató, Ofaié, Kinikinau e outros povos viveram processos diferentes de reconhecimento, deslocamento e retorno. No Pantanal, ilhas e áreas inundáveis foram tituladas a terceiros ou incorporadas a unidades e empreendimentos sem participação adequada das comunidades.
A Constituição Federal de 1988 reconheceu direitos originários sobre terras tradicionalmente ocupadas. O adjetivo “originários” é decisivo: o direito não nasce de uma concessão do Estado, mas precede a própria formação estatal. Demarcações, contudo, avançaram de modo lento e conflituoso. Desde o final dos anos 1970 e especialmente nas décadas seguintes, comunidades passaram a retornar a áreas reivindicadas, formando acampamentos e retomadas.
Em Mato Grosso do Sul, disputas agrárias tornaram-se uma das questões de direitos humanos mais graves do Brasil. Fazendeiros alegam títulos emitidos pelo poder público e insegurança jurídica; indígenas lembram que esses títulos foram concedidos sobre terras tradicionais e que a Constituição determina demarcação. Uma solução duradoura exige combinar reconhecimento territorial, indenizações juridicamente cabíveis, segurança física e participação comunitária. Reduzir o debate a “índio contra produtor” esconde a responsabilidade histórica do Estado na sobreposição de direitos.
A presença urbana adiciona outra camada. Campo Grande, Dourados, Amambai, Aquidauana e outras cidades têm estudantes, trabalhadores, profissionais e bairros indígenas. Falar uma língua originária, cursar universidade, usar tecnologia ou viver na cidade não torna alguém “menos indígena”. Identidade não depende de isolamento; depende de pertencimento, relações comunitárias e autorreconhecimento, em diálogo com o reconhecimento coletivo.
15. O longo caminho da divisão de Mato Grosso
A criação de Mato Grosso do Sul resultou de um processo longo, descontínuo e disputado. Não houve um movimento único marchando inevitavelmente rumo a 1977. Em diferentes épocas, propostas de separação responderam a conflitos locais, revoltas nacionais, ambições de elites, dificuldades administrativas e estratégias do governo federal.
Distância, economia e competição política
O sul ficava a centenas de quilômetros de Cuiabá, separado por rios, planícies e estradas precárias. Suas conexões econômicas apontavam para São Paulo, Paraná e o Prata, enquanto o norte mato-grossense tinha outros circuitos. Campo Grande cresceu como polo ferroviário, militar e comercial e passou a disputar recursos e influência com a capital. Fazendeiros, comerciantes e profissionais do sul reclamavam de arrecadação transferida e serviços insuficientes.
Esses argumentos possuíam base material, mas eram também instrumentos de poder. A divisão permitiria criar governo, assembleia, tribunal, secretarias e novos cargos; valorizaria Campo Grande e elites regionais. Parte da população apoiava a causa, mas não existiu consulta popular estadual no momento decisivo de 1977. A narrativa posterior de unanimidade deve ser lida como memória de legitimação.
1892, 1932 e o chamado Estado de Maracaju
Conflitos do início da República estimularam ideias de autonomia no sul. Em 1892, durante disputas políticas mato-grossenses, lideranças sulistas ensaiaram organização separada, sem criar instituição duradoura. O episódio é frequentemente incorporado a uma “linha reta” divisionista, embora objetivos e alianças da época fossem mais imediatos.
Em 1932, a Revolução Constitucionalista de São Paulo dividiu Mato Grosso. Forças do sul, associadas a São Paulo e comandadas politicamente por Vespasiano Barbosa Martins, instituíram o chamado Estado de Maracaju, com sede em Campo Grande. A experiência durou cerca de três meses, entre julho e outubro, e não recebeu reconhecimento nacional. Era antes uma administração revolucionária do que um estado constitucional consolidado.[24]
O nome Maracaju ganhou força simbólica. Após a derrota, a Liga Sul-Mato-Grossense organizou o discurso divisionista, buscou assinaturas e apresentou reivindicações à Assembleia Constituinte de 1934. O pedido não prosperou. Pesquisas recentes alertam que um movimento organizado e contínuo é mais claramente identificável a partir de 1932; retroceder sua origem a qualquer conflito do século XIX pode projetar a vitória futura sobre atores que defendiam outras coisas.
Décadas de 1950 a 1970
No pós-guerra, associações, jornais, parlamentares e lideranças retomaram a pauta. A expansão agrícola e pecuária, o crescimento de Campo Grande e Dourados e novas rodovias aumentaram a distância econômica percebida em relação a Cuiabá. Projetos de lei tramitaram no Congresso, mas enfrentaram resistência do governo de Mato Grosso e mudanças de conjuntura.
Após o golpe de 1964, a decisão passou a depender do regime militar. Estudos federais de geopolítica defendiam reorganizar unidades muito extensas, fortalecer fronteiras e racionalizar a administração. O governo Ernesto Geisel combinou esses argumentos técnicos com cálculo político: um novo estado poderia equilibrar forças partidárias e aumentar a presença federal no Centro-Oeste.
Assim, a divisão de 1977 teve quatro camadas inseparáveis: uma tradição regional de reivindicação; diferenças econômicas e logísticas reais; interesses de grupos do sul e do norte; e uma decisão autoritária do governo federal. Nenhuma camada, sozinha, explica o resultado.
16. 1977–1979: criação legal, transição e instalação do novo estado
Em 1977, a Presidência da República concluiu estudos sobre a divisão. O documento oficial analisou território, população, receita, infraestrutura, segurança e capacidade administrativa. Em 11 de outubro, o presidente Ernesto Geisel sancionou a Lei Complementar nº 31, criando Mato Grosso do Sul pelo desmembramento da parte meridional de Mato Grosso.[1][25]
A lei estabeleceu Campo Grande como capital, regulou partilha de bens, servidores, dívidas e receitas e determinou a instalação em 1º de janeiro de 1979. Também previu programas especiais de desenvolvimento por dez anos e a transferência de estruturas públicas. O território remanescente conservou o nome Mato Grosso e a capital Cuiabá.
A área do novo estado não foi desenhada do zero em 1977. Resultou de limites municipais e regionais acumulados, tendo ao norte uma linha que acompanha rios e divisores definidos pela lei. A partilha exigiu inventariar prédios, equipamentos, estradas, escolas, hospitais e quadros funcionais. Famílias de servidores precisaram escolher ou receber lotação; contratos e arquivos foram desmembrados.
Em 31 de março de 1978, Geisel nomeou o engenheiro Harry Amorim Costa como primeiro governador. Ele formou equipe e preparou a máquina administrativa antes da posse formal. Nas eleições de 15 de novembro de 1978, os cidadãos do novo estado elegeram senadores, deputados federais e 18 deputados estaduais encarregados de elaborar a primeira Constituição estadual. O governador, contudo, era nomeado, pois o país permanecia sob ditadura.
A solenidade de instalação ocorreu em 1º de janeiro de 1979 no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande. Harry Amorim tomou posse; foram instalados o Tribunal de Justiça, inicialmente com quatro desembargadores, e a Assembleia Constituinte. A cena é a verdadeira inauguração administrativa de Mato Grosso do Sul.[2]
O nascimento institucional foi turbulento. Harry Amorim, visto como técnico externo aos principais grupos locais, entrou em choque com lideranças políticas e foi exonerado em junho de 1979. O presidente da Assembleia, Londres Machado, assumiu interinamente; Marcelo Miranda foi nomeado; em 1980, nova crise abriu outro breve interinato de Londres antes da nomeação de Pedro Pedrossian. Em menos de dois anos, o estado teve sucessivas mudanças no Executivo, evidência de que a autonomia não eliminou disputas internas.
A criação também produziu identidades. “Mato-grossense” já nomeava habitantes do território uno. “Sul-mato-grossense” ganhou uso oficial e social, embora o IBGE registre também “mato-grossense-do-sul”. A separação política não apagou parentescos, memórias e culturas compartilhadas com Mato Grosso. A palavra “Sul” tornou-se diferenciação administrativa, não negação de uma história comum.
17. Instituições, Constituição e símbolos: construir um estado do zero
Criar Mato Grosso do Sul significava muito mais do que nomear um governador. Era necessário organizar secretarias, arrecadação, polícia, justiça, escolas, hospitais, planejamento, arquivos, empresas públicas e representação política. Parte da estrutura veio da divisão de órgãos mato-grossenses; parte foi criada em Campo Grande. Prédios improvisados e quadros reduzidos marcaram os primeiros meses.
Os 18 deputados constituintes promulgaram a primeira Constituição estadual em 13 de junho de 1979. O texto organizou os poderes e registrou as bases da nova unidade, mas nasceu sob limites da Constituição federal autoritária. Com a redemocratização e a Constituição brasileira de 1988, Mato Grosso do Sul elaborou uma nova Constituição, promulgada em 5 de outubro de 1989. Ela afirma Campo Grande como capital, estrutura Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público e administração municipal e incorpora direitos sociais e ambientais.[26]
A Assembleia Legislativa passou dos 18 constituintes para 24 deputados, número definido pela representação federal e pelas regras constitucionais. O Tribunal de Justiça ampliou comarcas e magistrados. O Ministério Público e o Tribunal de Contas desenvolveram quadros próprios. A Defensoria Pública consolidou-se como instituição de acesso à Justiça. Em cada caso, a autonomia estadual aproximou certas decisões, mas reproduziu desafios nacionais de desigualdade territorial e capacidade administrativa.
Bandeira, brasão e hino
A bandeira estadual combina verde, branco, azul e uma estrela amarela. Seu desenho, de Mauro Michael Munhoz, foi adotado no período de instalação. Interpretações oficiais associam cores e formas à natureza, à paz, ao céu e à esperança, embora a linguagem simbólica possa variar nas publicações. O brasão apresenta elementos da economia, do território e da data de criação. O hino estadual, com letra de Jorge Antônio Siufi e música de Otávio Gonçalves Gomes, integra o repertório cívico.[27]
Símbolos não apenas representam uma identidade pronta; ajudam a fabricá-la. Escolas, repartições, eventos e meios de comunicação difundiram a nova bandeira e o gentílico. Monumentos e efemérides reorganizaram uma memória regional em torno de 11 de outubro. Ao longo do tempo, o Pantanal ganhou papel cada vez mais forte na marca externa do estado, mesmo que grande parte da população viva no Cerrado e na bacia do Paraná.
Uma capital planejada pela expansão, não por fundação estatal
Campo Grande já era município, polo comercial e sede militar antes de 1977. Tornou-se capital porque concentrava população, ligações ferroviárias e rodoviárias, serviços e forças políticas. A nova função acelerou bairros, avenidas, conjuntos habitacionais e edifícios públicos. O Parque dos Poderes, implantado em área afastada do centro tradicional, reuniu governo, Assembleia e tribunais e abriu nova frente de urbanização.
O crescimento trouxe oportunidades e custos: periferização, córregos canalizados, dependência do automóvel e diferenças no acesso a saneamento. A capital não substituiu a diversidade regional. Dourados consolidou-se como centro do sul; Três Lagoas como eixo industrial do leste; Corumbá como porta pantaneira e mineral; Ponta Porã como centro de fronteira; Naviraí, Nova Andradina, Coxim, Aquidauana e outros municípios estruturaram suas áreas de influência.
18. Governadores, redemocratização e alternância de poder
Os primeiros governadores foram escolhidos pelo presidente da República. A eleição direta de 1982, a primeira para o Executivo estadual, marcou a transição democrática: Wilson Barbosa Martins venceu e tomou posse em 15 de março de 1983. Seu vice, Ramez Tebet, concluiu o mandato após a renúncia do titular em 1986 para disputar o Senado. Desde então, eleições regulares consolidaram a competição entre grupos e partidos.
| Período | Governante | Como chegou ao cargo | Observação histórica |
|---|---|---|---|
| 1º jan.–12 jun. 1979 | Harry Amorim Costa | Nomeado | Primeiro governador; organizou a instalação e foi exonerado após cinco meses. |
| 12–30 jun. 1979 | Londres Machado | Linha sucessória | Primeiro de dois períodos interinos como presidente da Assembleia. |
| 30 jun. 1979–28 out. 1980 | Marcelo Miranda Soares | Nomeado | Voltaria ao governo pelo voto em 1987. |
| 28 out.–7 nov. 1980 | Londres Machado | Linha sucessória | Segundo período interino. |
| 7 nov. 1980–15 mar. 1983 | Pedro Pedrossian | Nomeado | Governaria novamente, eleito, entre 1991 e 1995. |
| 15 mar. 1983–14 maio 1986 | Wilson Barbosa Martins | Eleito diretamente | Primeiro governador escolhido pelo voto popular no novo estado. |
| 14 maio 1986–15 mar. 1987 | Ramez Tebet | Vice na linha sucessória | Concluiu o mandato e depois se tornou senador e presidente do Senado. |
| 15 mar. 1987–15 mar. 1991 | Marcelo Miranda Soares | Eleito diretamente | Segundo período no cargo, agora legitimado pelas urnas. |
| 15 mar. 1991–1º jan. 1995 | Pedro Pedrossian | Eleito diretamente | Segundo período à frente de Mato Grosso do Sul. |
| 1º jan. 1995–1º jan. 1999 | Wilson Barbosa Martins | Eleito diretamente | Segundo mandato, já sob a ordem constitucional de 1988. |
| 1º jan. 1999–1º jan. 2007 | José Orcírio, Zeca do PT | Eleito e reeleito | Primeira gestão estadual do PT; dois mandatos completos. |
| 1º jan. 2007–1º jan. 2015 | André Puccinelli | Eleito e reeleito | Dois mandatos; ex-prefeito da capital. |
| 1º jan. 2015–1º jan. 2023 | Reinaldo Azambuja | Eleito e reeleito | Dois mandatos durante recessão, pandemia e incêndios de 2020. |
| Desde 1º jan. 2023 | Eduardo Riedel | Eleito diretamente | Governador em exercício na data de atualização deste especial, 28 jul. 2026. |
A tabela distingue pessoas de períodos: Marcelo Miranda, Pedro Pedrossian e Wilson Martins governaram em mais de uma ocasião; Londres Machado exerceu dois interinatos. Fontes jornalísticas às vezes chegam a totais diferentes porque contam mandatos, titulares ou ocupantes eventuais. Os períodos seguem a cronologia publicada sobre o Executivo estadual.[28]
A política estadual foi por décadas polarizada por grupos ligados a Pedro Pedrossian e Wilson Martins, com mudanças partidárias e alianças municipais. A partir de 1998, Zeca do PT rompeu essa alternância tradicional. André Puccinelli e Reinaldo Azambuja reorganizaram o centro político em ciclos seguintes. Eduardo Riedel, ex-secretário estadual e candidato do grupo governista, venceu o segundo turno de 2022.
A democracia ampliou participação, mas não eliminou desigualdades de representação. Mulheres ocuparam prefeituras, secretarias, mandatos legislativos e o Senado; nenhuma, até julho de 2026, governou o estado como titular. Simone Tebet, de Três Lagoas, tornou-se senadora, candidata à Presidência em 2022 e ministra federal. Lideranças indígenas conquistaram mandatos municipais e espaços institucionais, ainda em número muito inferior à proporção populacional.
Escândalos, operações policiais, disputas sobre obras e acusações de corrupção atravessaram diferentes governos e partidos. Um balanço histórico responsável não transforma investigação em condenação nem silencia fatos públicos. O ponto estrutural é que a criação do estado multiplicou centros de decisão, contratos e carreiras, exigindo instituições de controle que também estavam em construção.
19. Da fronteira agrícola à nova indústria: transformação econômica
A economia de Mato Grosso do Sul nasceu com forte peso da pecuária extensiva, da agricultura e dos serviços públicos. Desde os anos 1970, pesquisa agronômica, correção de solos ácidos, mecanização, crédito rural e imigração de produtores transformaram chapadões do Cerrado em áreas de soja, milho, algodão e pastagens cultivadas. A mudança se acelerou após a criação do estado.
Produtores vindos do Sul e Sudeste trouxeram capital, técnicas e cooperativismo. Trabalhadores nordestinos, paranaenses, paulistas, mineiros e de outras origens abasteceram canteiros, lavouras e cidades. A narrativa de “pioneiros” precisa incluir quem vendeu trabalho e quem perdeu terra. A expansão sobre Cerrado e Mata Atlântica reduziu vegetação nativa, alterou cursos d’água e aumentou erosão em diversas bacias.
Pecuária e agricultura em escala
O rebanho bovino tornou o estado referência em cria, recria, engorda e genética. Frigoríficos conectaram produção a mercados nacionais e internacionais. A sanidade animal e a rastreabilidade ganharam importância após crises de febre aftosa e exigências de importadores. No Pantanal, pecuária extensiva tradicional pode manter cobertura nativa quando manejada de acordo com o pulso das águas, mas sobrecarga, desmatamento e fogo inadequado produzem danos.
A soja se expandiu no centro, sul e nordeste; o milho de segunda safra passou a dividir o calendário anual; cana-de-açúcar e usinas de etanol cresceram principalmente no sul e sudeste. Mandioca, arroz, feijão, horticultura, leite, aves, suínos e pescado completam uma estrutura mais diversa do que a imagem “boi e soja” sugere. Agricultura familiar e assentamentos abastecem feiras e programas públicos, embora enfrentem crédito, assistência e logística desiguais.
Celulose, eucalipto, mineração e energia
No século XXI, o leste de Mato Grosso do Sul recebeu grandes fábricas de celulose. Três Lagoas se tornou um dos principais polos mundiais do setor; Ribas do Rio Pardo recebeu novo complexo industrial, e projetos avançaram em municípios como Inocência. Eucaliptais substituíram pastagens de baixa produtividade e também produziram concentração fundiária, mudança no trânsito, demanda por moradia e debate sobre água e biodiversidade.
A celulose alterou a pauta de exportações e a arrecadação, mas cria menos empregos permanentes por hectare do que atividades intensivas em trabalho. Municípios enfrentam ciclos de milhares de trabalhadores na construção seguidos por operação altamente automatizada. Planejamento habitacional, qualificação e serviços públicos determinam se o investimento vira desenvolvimento duradouro.
Corumbá e Ladário possuem minério de ferro e manganês no maciço do Urucum. A mineração liga-se ao rio Paraguai e à ferrovia, sofre com ciclos de preço e levanta questões sobre barragens, água, patrimônio e comunidades tradicionais. Hidrelétricas na bacia do Paraná e pequenas centrais em afluentes geram energia, mas alteram rios; usinas de biomassa e biogás aproveitaram resíduos agroindustriais. A transição energética abre espaço para etanol de milho, biometano e solar, sem eliminar conflitos territoriais.
Serviços, comércio e dados recentes
Serviços são a maior parcela do valor adicionado, concentrados em Campo Grande e centros regionais. Administração pública, saúde, educação, varejo, transporte e tecnologia empregam grande parte da população urbana. Comércio de fronteira movimenta Ponta Porã e Corumbá, sensível ao câmbio e às regras aduaneiras.
Os números estaduais mais recentes exigem cuidado porque bases possuem calendários diferentes. O Censo é de 2022; o Produto Interno Bruto estadual oficial completo é divulgado com defasagem. Em 2023, o IBGE calculou crescimento real de 13,4% para Mato Grosso do Sul, segundo maior entre as unidades da Federação naquele ano, muito influenciado pelo desempenho agropecuário.[31] Um único ano excepcional não mede sozinho bem-estar, e o resultado pode alternar com clima e preços.
Em 2026, o discurso governamental destaca uma “nova matriz produtiva” baseada em agroindústria, celulose, bioenergia e logística.[32] A formulação descreve uma transformação real, mas deve ser testada por critérios mais amplos: diversificação, empregos de qualidade, redução de desigualdades, respeito a direitos territoriais, inovação local e conservação. Crescer e desenvolver são verbos relacionados, não sinônimos.
20. Municípios, população e urbanização
Mato Grosso do Sul foi instalado com 55 municípios. Emancipações posteriores ampliaram o total. Figueirão e Paraíso das Águas, criados por leis de 2003 e instalados depois dos trâmites e eleições correspondentes, completaram o mapa atual de 79 municípios. O número parece estável em julho de 2026, mas limites e distritos continuam sujeitos a ajustes legais e cartográficos.
O IBGE contou 2.757.013 habitantes no Censo 2022 e estimou 2.924.631 em 2025. A área oficial de 357.142,010 km² produz densidade baixa — 7,72 habitantes por km² no Censo —, mas a média esconde concentração. A maioria vive em cidades; extensas áreas do Pantanal, fronteira e nordeste têm população rarefeita.[3]
Campo Grande reúne uma parcela muito grande dos habitantes, da renda, dos leitos especializados, das universidades e da administração. Dourados é o segundo grande polo e atende dezenas de municípios. Três Lagoas cresceu com indústria e posição próxima a São Paulo. Corumbá possui território municipal gigantesco e população concentrada na sede; Ponta Porã funciona em articulação cotidiana com o Paraguai.
A urbanização não apagou o rural. Pequenas cidades dependem de safras, frigoríficos, usinas e transferências públicas; trabalhadores alternam residência urbana e ocupação agrícola. Assentamentos, aldeias, comunidades quilombolas, retiros pantaneiros e distritos integram redes municipais sem desfrutar o mesmo acesso a internet, saúde, transporte ou saneamento.
Migrações moldaram bairros e sotaques. Além de deslocamentos internos brasileiros, o estado recebeu paraguaios, bolivianos, japoneses — com presença notável de okinawanos em Campo Grande —, árabes, portugueses, espanhóis, italianos e outros grupos. Há ainda mobilidade de haitianos, venezuelanos e migrantes de rotas contemporâneas. Cada fluxo tem época e inserção próprias; chamar toda a sociedade de “mistura” não deve ocultar xenofobia, racismo e diferenças de poder.
O envelhecimento populacional, a queda da fecundidade e a saída de jovens de municípios pequenos alteram a agenda. Crescimento industrial acelera certas cidades enquanto outras perdem habitantes. Planejamento regional — compartilhamento de saúde, resíduos, transporte e ensino — torna-se tão importante quanto a competição por investimentos.
21. Cultura sul-mato-grossense: uma identidade feita de encontros
Não existe uma única cultura de Mato Grosso do Sul. Existem repertórios que se cruzam: indígena, pantaneiro, fronteiriço, paraguaio, boliviano, caipira, gaúcho, nordestino, negro, japonês, árabe e urbano. A identidade estadual nasceu depois das práticas que passou a reunir. Seu traço mais reconhecível talvez seja justamente viver no encontro.
Tereré, mesa e circulação
O tereré — infusão fria de erva-mate — é gesto cotidiano e social. A guampa e a bomba circulam em rodas de família, trabalho e amizade. A prática conecta o estado ao Paraguai e a tradições guarani. A Unesco reconheceu em 2020 conhecimentos e práticas do tereré com pohã ñana apresentados pelo Paraguai; isso não deve ser citado como se toda forma brasileira tivesse recebido automaticamente o título. O reconhecimento confirma, porém, a profundidade transfronteiriça do costume.
Sopa paraguaia — que é sólida —, chipa, mandioca, churrasco, arroz carreteiro, peixe pantaneiro, caldo de piranha e carne seca convivem com receitas de migrações internas. Em Campo Grande, o sobá foi reinventado por imigrantes okinawanos e popularizado na Feira Central, tornando-se patrimônio cultural municipal. A adaptação usa macarrão, caldo, carne e omelete em uma tradição já diferente do prato japonês de origem.
A cozinha pantaneira dependeu de conservação, comitivas e ciclos da água. A fronteiriça utiliza produtos e técnicas que atravessam a linha internacional. A alimentação indígena não é uma categoria única: cada povo possui sementes, preparos e conhecimentos, afetados por perda territorial e recuperados em projetos comunitários.
Música, dança e literatura
Polca paraguaia, guarânia e chamamé fazem parte do ambiente sonoro do sul e da fronteira. A viola de cocho acompanha cururu e siriri, tradições compartilhadas com Mato Grosso e registradas pelo Iphan como patrimônio cultural brasileiro. Música sertaneja e regional transformou a paisagem em canção; artistas como Almir Sater, Paulo Simões e Geraldo Roca projetaram uma estética associada a estradas, rios e Pantanal. O rótulo “música de MS” abriga trajetórias muito mais numerosas e não pertence a um único gênero.
A literatura regional inclui o olhar oitocentista de Taunay, a linguagem inventiva de Manoel de Barros, memórias de fronteira e produção indígena contemporânea. Manoel nasceu em Cuiabá quando o estado ainda era uno, viveu longamente no território que se tornou Mato Grosso do Sul e fez do Pantanal e das “coisas desimportantes” matéria poética. Apropriá-lo como símbolo estadual não deve apagar sua dimensão mato-grossense e brasileira.
Artes Kadiwéu são conhecidas por grafismos complexos em cerâmica e pintura corporal. Trançados, esculturas, cantos, rezas e festas de diferentes povos carregam conhecimento e propriedade intelectual coletiva. Reprodução comercial sem consentimento pode ser apropriação; valorização exige autoria, remuneração e controle comunitário.
Festas, fé e patrimônio vivo
O Banho de São João de Corumbá e Ladário reúne procissões de andores até o rio Paraguai, música e devoção. O Iphan registrou a celebração como Patrimônio Cultural do Brasil em 2021.[35] Festas do Divino, santos padroeiros, romarias, celebrações afro-brasileiras, igrejas evangélicas e espiritualidades indígenas mostram pluralidade religiosa.
Fronteira produz língua. Palavras guarani e espanholas entram no português; famílias alternam idiomas; rádios e comércios alcançam dois países. Preconceito linguístico costuma chamar esse repertório de erro quando ele é, na verdade, competência de convivência. A história cultural de Mato Grosso do Sul é melhor entendida como circulação do que como pureza.
22. História negra, pós-abolição e comunidades quilombolas
A presença negra regional antecede a Abolição e não se limita ao trabalho escravizado. Africanos e seus descendentes participaram da construção de fortes, fazendas, casas, estradas e cidades; atuaram na navegação, pecuária, agricultura, serviço doméstico, comércio e guerra. Registros paroquiais revelam casamentos, batismos e compadrios que formavam redes de proteção dentro e além do cativeiro.
Depois de 1888, liberdade legal não veio acompanhada de terra, escola ou reparação. Famílias ocuparam áreas rurais, trabalharam como agregadas, peões, lavradoras e artesãs e criaram comunidades baseadas em parentesco e uso coletivo. O conceito contemporâneo de comunidade quilombola não exige prova de fuga para um refúgio isolado; envolve autoidentificação, trajetória histórica própria e relação territorial, conforme a Constituição e normas de reconhecimento.
Furnas do Dionísio, na região de Jaraguari, relaciona sua história a Dionísio Antônio Vieira e à ocupação familiar no início do século XX. Furnas da Boa Sorte, em Corguinho, e a Comunidade São Benedito/Tia Eva, em Campo Grande, são outras referências. Tia Eva, ex-escravizada e liderança religiosa, chegou à região na virada para o século XX, reuniu família e devotos e estabeleceu uma comunidade cuja festa de São Benedito permanece central.
Existem comunidades certificadas em vários municípios, incluindo Aquidauana, Corumbá, Nioaque, Rio Brilhante, Sonora, Pedro Gomes e Campo Grande. Certificação cultural e titulação territorial são etapas diferentes; muitas comunidades aguardam regularização. Mapas oficiais ajudam a localizar presenças, mas podem ficar desatualizados à medida que novos reconhecimentos ocorrem.[37]
A história negra urbana inclui clubes sociais, irmandades, terreiros, escolas de samba, associações e movimentos contra o racismo. Políticas de cotas nas universidades ampliaram acesso e estimularam novas pesquisas sobre temas antes ausentes dos arquivos oficiais. A inclusão desta história não é um capítulo adicional por cortesia; muda a compreensão de trabalho, propriedade, cidade e cultura em todo o estado.
23. Educação, universidades, arquivos e produção de conhecimento
Durante grande parte da história regional, escolas eram poucas e distantes. Missões religiosas, aulas isoladas, grupos escolares e internatos atenderam parcelas específicas da população. No campo, crianças conciliavam estudo e trabalho; aldeias enfrentaram uma educação voltada à assimilação e à proibição de línguas. A expansão urbana e a criação do estado aumentaram redes municipais e estadual, mas distâncias, formação docente e desigualdade permaneceram desafios.
UFMS, UEMS e UFGD
A atual Universidade Federal de Mato Grosso do Sul tem raízes em faculdades criadas no antigo Mato Grosso. A Universidade Estadual de Mato Grosso reunia campi no norte e no sul; a Lei Complementar nº 31 determinou reorganização. Em 5 de julho de 1979, a Lei nº 6.674 federalizou a instituição situada no novo estado e criou formalmente a UFMS.[39] Seu modelo multicampi levou ensino e pesquisa a cidades do interior, embora unidades e cursos tenham mudado ao longo do tempo.
A Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul foi prevista na primeira Constituição estadual e implantada em 1993, com sede em Dourados e unidades em diversas cidades. Sua missão inicial enfatizava formação de professores e interiorização. A UEMS ampliou cursos, pós-graduação, pesquisa e ações afirmativas; tornou-se parte da estratégia para reduzir concentração universitária na capital.[40]
A Universidade Federal da Grande Dourados foi criada pela Lei nº 11.153, de 29 de julho de 2005, a partir de unidades da UFMS em Dourados. A UFGD fortaleceu pesquisas sobre fronteira, povos indígenas, agricultura, história e diversidade social.[41] Institutos federais, universidades privadas e centros de pesquisa completam o sistema.
Ciência aplicada a um território singular
Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, Embrapa Pantanal, em Corumbá, e Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, conectam pesquisa nacional a pecuária, sistemas agrícolas e conservação. Universidades investigam qualidade da água, clima, arqueologia, línguas indígenas, saúde de fronteira, produção de alimentos e biodiversidade. O Instituto Federal de Mato Grosso do Sul forma técnicos e pesquisadores em vários municípios.
A ciência também pode carregar conflitos. Tecnologias agrícolas ampliaram produtividade e área cultivada; seus impactos dependem de uso do solo e regulação. Pesquisas realizadas em terras ou com conhecimentos indígenas e tradicionais exigem consentimento, devolução de resultados e repartição de benefícios. A história da coleta científica no Pantanal inclui espécimes e objetos levados para museus distantes; projetos contemporâneos procuram construir coleções e narrativas locais.
Arquivos e memória
Arquivo Público Estadual, Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, museus, arquivos municipais, centros de documentação da UFMS, UFGD e UEMS, paróquias, imprensa e coleções familiares guardam fontes dispersas. Parte importante da história anterior a 1977 permanece em arquivos de Cuiabá, Rio de Janeiro, São Paulo, Assunção, Buenos Aires e Lisboa. A divisão administrativa separou acervos de uma experiência territorial antes comum.
Digitalização ampliou o acesso, mas páginas saem do ar e metadados podem perder-se. Preservar originais, indicar autoria e manter cópias confiáveis é trabalho de infraestrutura democrática. Sem arquivos, efemérides substituem pesquisa; com arquivos, diferentes grupos podem confrontar versões oficiais.
24. Patrimônio, paisagens e turismo
Mato Grosso do Sul possui patrimônios arqueológicos, arquitetônicos, naturais e imateriais. Eles não estão distribuídos de forma equilibrada nem protegidos pelo mesmo instrumento. Tombamento preserva certas características físicas; registro reconhece práticas culturais; unidade de conservação regula uso ambiental. Nenhuma dessas medidas dispensa comunidade, recursos e manutenção.
Corumbá, ferrovia e fronteira
O conjunto histórico de Corumbá, tombado pelo Iphan em 1993, preserva casario ligado à navegação e ao comércio. Porto Geral, praça, ladeiras, armazéns e edifícios públicos contam a fase em que o rio Paraguai era principal via internacional. A conservação enfrenta umidade, cheias, uso inadequado e custo de restauração. Patrimônio vivo precisa de moradores e atividades, não apenas fachadas.
O Forte de Coimbra e edificações militares documentam a disputa colonial e a guerra. Em Campo Grande, o Complexo Ferroviário da Noroeste integra estação, oficinas, armazéns e vila. A Casa do Artesão, instalada em edifício histórico, a Morada dos Baís e outros bens mostram etapas da capital. Em municípios do interior, pontes, estações, igrejas, cemitérios e traçados urbanos demandam inventários antes que a renovação apague vestígios.
Serra da Bodoquena e águas transparentes
Bonito e Jardim se projetaram internacionalmente por rios de águas claras, cavernas, cachoeiras e fauna. A transparência depende de geologia calcária, mata ciliar, solo protegido e controle de sedimentos. O modelo de visitação usa limites de carga, guias e voucher unificado, embora pressões de expansão urbana, agricultura e eventos extremos exijam revisão constante.
A Gruta do Lago Azul, tombada e protegida como monumento natural estadual, reúne valor paisagístico, geológico, paleontológico e arqueológico. Fósseis de mamíferos extintos foram encontrados em cavidades da região. A beleza turística é apenas a superfície de arquivos ambientais com dezenas de milhares de anos.
Turismo como atividade histórica
Pantanal, Bonito, Serra da Bodoquena, rota das missões e da Retirada da Laguna, pesca, observação de aves e turismo de fronteira movimentam serviços. Em 2025/2026, Bonito continuava a receber reconhecimento internacional por ecoturismo.[43] Títulos promocionais são passageiros; o patrimônio que os sustenta depende de água limpa, comunidades respeitadas e gestão de visitantes.
Turismo histórico responsável evita encenação que transforma indígenas, paraguaios ou pantaneiros em cenário. Contrata guias locais, remunera artesãos, explica conflitos e apresenta fontes. O visitante não encontra uma paisagem fora do tempo: encontra um território usado, disputado e conservado por pessoas.
25. Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica: história ambiental e crise climática
A natureza de Mato Grosso do Sul sempre foi agente da história. Cheias determinavam deslocamentos Guató, manejo pecuário, calendário de navegação e localização de fazendas. Secas alteravam pasto e abastecimento. Solos do Cerrado, antes considerados pouco adequados à lavoura em larga escala, foram transformados por ciência, insumos e máquinas. A história ambiental pergunta não apenas como o meio condicionou pessoas, mas como sociedades mudaram rios, fogo, vegetação e clima.
O pulso do Pantanal
O Pantanal funciona por um pulso anual e plurianual de inundação. Chuva nas cabeceiras dos planaltos leva meses para atravessar a planície de baixa declividade. “Cheia” não é desastre automático: transporta nutrientes, conecta baías, favorece reprodução de peixes e sustenta biodiversidade. O problema surge quando ocupações inadequadas, barragens, assoreamento e eventos extremos rompem adaptações históricas.
O fogo também possui história. Raios e práticas humanas queimam áreas do bioma há muito tempo; comunidades usam fogo de maneira localizada para manejo. Mas seca extrema, combustível acumulado, ignições e dificuldade de acesso podem produzir megaincêndios. Em 2020, cerca de 44.998 km² queimaram no bioma Pantanal como um todo, o maior desastre de fogo de sua série histórica segundo o plano federal de prevenção.[44]
Em 2024, outra temporada severa atingiu aproximadamente 1,6 milhão de hectares no bioma segundo balanço operacional divulgado em Mato Grosso do Sul. Em 2025, a área queimada no estado caiu de modo expressivo, para cerca de 202,7 mil hectares segundo o Corpo de Bombeiros e o governo estadual, resultado associado a prevenção, resposta e condições diferentes.[45] Comparações precisam esclarecer se medem todo o bioma ou apenas a porção estadual e qual satélite e período foram usados.
A mudança climática eleva temperatura e aumenta probabilidade de secas e extremos, mas não age sozinha. Desmatamento nas cabeceiras, assoreamento — visível no Taquari —, barragens, estradas e manejo do fogo alteram a vulnerabilidade. Políticas eficazes combinam brigadas permanentes, alerta por satélite, aceiros planejados, apoio a proprietários e comunidades, fiscalização e redução de emissões.
Cerrado e Mata Atlântica fora do cartão-postal
O Pantanal domina a imagem do estado, mas o Cerrado ocupa os grandes planaltos onde nascem rios que alimentam a planície e a bacia do Paraná. Conversão de vegetação pode aumentar sedimentos e reduzir regularidade hídrica. Reservas legais, áreas de preservação permanente e unidades de conservação formam uma rede ainda fragmentada. O desafio é manter corredores ecológicos em paisagens agrícolas altamente produtivas.
No sul, a Mata Atlântica e florestas estacionais sofreram intensa derrubada por madeira, ervais, colonização e agricultura. Fragmentos guardam espécies, nascentes e memória de um ambiente que não aparece nos estereótipos pantaneiros. Restauração de mata ciliar no Ivinhema, Amambai, Iguatemi e Paraná tem impacto regional.
Conservar com pessoas
Parques, reservas particulares, terras indígenas e territórios tradicionais protegem áreas importantes. Proibições impostas sem diálogo, porém, podem criminalizar modos de vida. Povos indígenas, ribeirinhos, pescadores profissionais, pantaneiros, quilombolas e produtores acumulam conhecimentos distintos. Governança ambiental duradoura precisa incorporá-los, repartir benefícios do turismo e remunerar serviços de conservação.
A designação do Pantanal como Reserva da Biosfera pela Unesco, em 2000, alcança uma área ampla compartilhada por Brasil, Bolívia e Paraguai; o sítio do Patrimônio Mundial possui limites específicos e não equivale a todo o bioma.[46] Essa precisão importa: selos internacionais não substituem políticas locais e não podem ser estendidos para fins promocionais além da área reconhecida.
26. Da navegação platina à Rota Bioceânica: a fronteira em julho de 2026
Desde as monções e o porto de Corumbá, a história regional é também a procura de saídas para mercados distantes. A Rota de Integração Latino-Americana, conhecida como Rota Bioceânica ou Corredor Rodoviário Bioceânico, retoma essa posição. O traçado principal conecta o Centro-Oeste brasileiro a Paraguai, Argentina e portos do norte do Chile, reduzindo distâncias potenciais até mercados do Pacífico.
Em Mato Grosso do Sul, o corredor atravessa Campo Grande e segue pela BR-267 até Porto Murtinho. Do outro lado do rio Paraguai fica Carmelo Peralta. A ponte binacional é o elo físico mais visível, acompanhada por acessos rodoviários, instalações aduaneiras e obras no trecho paraguaio. A rota é um sistema multinacional: uma ponte concluída não basta se estradas, fronteiras e procedimentos não operarem de forma coordenada.
Em 24 de julho de 2026, as duas frentes do tabuleiro da ponte se encontraram, estabelecendo a ligação física entre Brasil e Paraguai. A visita técnica registrou o marco quatro dias antes da atualização deste especial.[47] Isso não significava abertura imediata ao tráfego. Pavimentação final, acabamentos, acessos, aduanas, segurança e testes permaneciam necessários. Fontes oficiais anteriores previam entrega no segundo semestre de 2026, mas cronogramas de obra podem mudar.[48]
O corredor pode reduzir custo para celulose, carne, grãos e outros produtos, atrair centros logísticos e ampliar turismo. Porto Murtinho já experimenta valorização imobiliária, obras e expectativa empresarial. Pequenos negócios podem ganhar mercado; populações locais também podem enfrentar encarecimento de moradia, trânsito pesado, exploração sexual, contrabando e pressão ambiental se políticas chegarem tarde.
Para povos indígenas e comunidades tradicionais no trajeto, consulta e salvaguardas são essenciais. Caminhões adicionais elevam risco de atropelamento de fauna e acidentes. O rio Paraguai requer proteção contra cargas perigosas. Em áreas urbanas, contornos rodoviários e fiscalização precisam evitar que uma integração continental divida bairros.
A rota recoloca Mato Grosso do Sul no centro do continente, mas a história recomenda cautela com promessas de “destino natural”. Monções, ferrovias e rodovias produziram ganhadores e perdedores. Integração só vira desenvolvimento se parte do valor permanecer nas cidades, qualificar trabalhadores, respeitar direitos e financiar conservação.
27. Mato Grosso do Sul em 2026: um retrato sem propaganda nem pessimismo
Em 28 de julho de 2026, Mato Grosso do Sul se aproxima de meio século de criação jurídica. Eduardo Riedel exerce o governo iniciado em 2023; o ciclo eleitoral de outubro definirá o Executivo e o Legislativo para o período seguinte. Como esta matéria foi fechada antes da eleição, não antecipa candidaturas confirmadas depois da data, resultados ou mudanças de partido.
O estado tem renda domiciliar per capita e mercado de trabalho em posições favoráveis na comparação nacional recente, mas médias escondem diferenças. Campo Grande e polos industriais concentram oportunidades; comunidades indígenas, negras, periferias urbanas e municípios pequenos enfrentam indicadores piores. Renda do agronegócio e exportações não se distribui automaticamente entre trabalhadores.
A economia vive ciclo de grandes investimentos em celulose, bioenergia, infraestrutura e logística. O desafio é evitar dependência excessiva de poucas commodities. Educação técnica, fornecedores locais, pesquisa, economia criativa e pequenas empresas podem reter valor. Governos precisam planejar cidades que crescem depressa e apoiar as que envelhecem ou perdem população.
No campo ambiental, a queda da área queimada em 2025 foi positiva, mas não encerrou o risco. O Pantanal alterna secas e cheias, e mudanças climáticas tornam planejamento permanente. O Cerrado e as cabeceiras exigem atenção equivalente. A reputação internacional do estado depende cada vez mais de demonstrar origem legal, baixa emissão e proteção de água.
Na questão territorial indígena, o passivo continua aberto. A terceira maior população indígena entre os estados brasileiros, conforme leituras dos dados do Censo, contrasta com conflitos fundiários e serviços insuficientes. Universidades, movimentos, produtores, Judiciário e governos possuem conhecimento para soluções negociadas, mas decisões adiadas elevam custos humanos.
A fronteira internacional é simultaneamente oportunidade e responsabilidade. Combater tráfico e violência não pode transformar moradores fronteiriços em suspeitos permanentes. Saúde, educação, trabalho e ambiente exigem cooperação com Paraguai e Bolívia. O espanhol e o guarani podem ser recursos de formação, turismo e comércio, não sinais de distância do Brasil.
Em 2026, o traço mais promissor de Mato Grosso do Sul é sua capacidade de conectar mundos: Atlântico e Pacífico, Cerrado e Pantanal, campo e cidade, Brasil e países vizinhos, tecnologia e conhecimento tradicional. Seu maior risco é fazer dessas conexões corredores de passagem que extraem riqueza sem construir cidadania.
28. Linha do tempo essencial da história de Mato Grosso do Sul
- Datações arqueológicas em aterros do Pantanal indicam ocupações humanas muito antigas; outras áreas do estado preservam arte rupestre, cerâmica e instrumentos.
- Datas associadas a ocupações ceramistas guarani aparecem em pesquisas arqueológicas no atual território estadual.
- Expedições espanholas, encomiendas e missões jesuíticas atuam na região do Itatim; povos indígenas negociam, resistem e se deslocam.
- Bandeiras paulistas atacam missões e aldeias, capturam indígenas e contribuem para o recuo de núcleos missioneiros.
- Monções cruzam os rios Pardo, Coxim, Taquari e Paraguai rumo às minas de Cuiabá; Camapuã torna-se ponto de passagem.
- A Coroa portuguesa cria a Capitania de Mato Grosso, separada de São Paulo.
- Tratados de Madri e Santo Ildefonso tentam definir fronteiras luso-espanholas; ocupação efetiva continua decisiva.
- Fundação do Forte de Coimbra para defender a navegação e a fronteira do rio Paraguai.
- Criação do arraial de Albuquerque, origem de Corumbá, e do presídio do rio Mondego, origem de Miranda.
- Com a Independência, a área integra a Província de Mato Grosso no Império do Brasil.
- Pecuária e povoamento não indígena se expandem no leste e sul; a escravidão está documentada em núcleos regionais.
- O Paraguai invade Mato Grosso; Forte de Coimbra é atacado, Corumbá ocupada e colunas avançam por terra.
- Retirada da Laguna e retomada de Corumbá; cólera, combate e fome devastam a coluna expedicionária.
- Fim da Guerra da Tríplice Aliança; reconstrução e nova fase de navegação pelo rio Paraguai.
- Corumbá é elevada a cidade e consolida seu papel de porto comercial.
- Concessão a Tomás Laranjeira e formação da Companhia Mate Laranjeira estruturam o ciclo empresarial da erva-mate.
- Abolição legal da escravidão, sem política de terra ou reparação para a população liberta.
- Campo Grande torna-se município, após crescer como pouso e centro pecuário.
- A Estrada de Ferro Noroeste alcança Campo Grande e Porto Esperança, alterando a orientação econômica regional.
- Pequenas reservas são demarcadas para Guarani e Kaiowá enquanto terras tradicionais são abertas à colonização.
- Durante a Revolução Constitucionalista, lideranças do sul estabelecem a administração chamada Estado de Maracaju.
- O Decreto-Lei nº 5.812 cria o Território Federal de Ponta Porã.
- Criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados, eixo da Marcha para o Oeste.
- O Território de Ponta Porã é extinto e reincorporado a Mato Grosso.
- Agricultura, rodovias, novos municípios e o crescimento de Campo Grande reforçam a reivindicação divisionista.
- A Lei Complementar nº 31 cria Mato Grosso do Sul.
- Instalação oficial do estado, posse de Harry Amorim Costa, Assembleia Constituinte e Tribunal de Justiça.
- Promulgação da primeira Constituição estadual.
- Lei federal cria a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul a partir da estrutura existente no novo estado.
- Wilson Barbosa Martins é eleito e toma posse como primeiro governador escolhido diretamente pela população estadual.
- Promulgação da Constituição estadual vigente, adaptada à Constituição Federal de 1988.
- Implantação da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul; tombamento federal do conjunto histórico de Corumbá.
- O Pantanal é reconhecido como Reserva da Biosfera pela Unesco dentro de uma área transnacional ampla.
- Criação legal de Figueirão e Paraíso das Águas, municípios que completariam o total atual de 79.
- Criação da Universidade Federal da Grande Dourados.
- Megaincêndios atingem o Pantanal em escala inédita na série histórica.
- Censo registra 2.757.013 habitantes e 116.469 pessoas indígenas em Mato Grosso do Sul.
- Eduardo Riedel toma posse como governador.
- Nova temporada severa de fogo no Pantanal em 2024 é seguida por forte redução da área queimada estadual em 2025.
- As frentes da ponte Porto Murtinho–Carmelo Peralta se conectam fisicamente; acabamentos, acessos e estruturas de fronteira ainda antecedem a operação plena.
- Data de fechamento e checagem desta edição da História do Mato Grosso do Sul.
29. Mitos, dúvidas frequentes e respostas documentadas
Mato Grosso do Sul “nasceu” em 1977 ou em 1979?
Foi criado juridicamente em 11 de outubro de 1977 pela Lei Complementar nº 31 e instalado administrativamente em 1º de janeiro de 1979. A primeira data marca a decisão legal; a segunda, o funcionamento autônomo. Ambas devem aparecer em uma narrativa precisa.
A história estadual começou com a divisão de Mato Grosso?
Não. A história da instituição estadual começou em 1977/1979; a história humana do território alcança pelo menos cerca de 8,4 mil anos segundo datações arqueológicas. Antes do estado existiram sociedades indígenas, missões, fortes, cidades, fazendas e circuitos internacionais.
O nome correto do gentílico é sul-mato-grossense?
Sim. “Sul-mato-grossense” é a forma predominante e oficial em usos estaduais. O IBGE também registra “mato-grossense-do-sul”. “Mato-grossense” continua sendo o gentílico de Mato Grosso e pode aparecer historicamente para pessoas nascidas antes da divisão.
Campo Grande sempre foi a cidade mais importante?
Não. Corumbá foi o grande porto e centro comercial da segunda metade do século XIX e início do XX. A Noroeste do Brasil, as conexões com São Paulo, a posição central e a instalação de serviços favoreceram a ascensão de Campo Grande, escolhida capital em 1977.
O Estado de Maracaju já foi um estado brasileiro reconhecido?
Não como unidade constitucional permanente. Foi uma administração revolucionária organizada no sul de Mato Grosso durante a Revolução de 1932, alinhada a São Paulo, com duração de aproximadamente três meses. Sua importância é política e simbólica para o divisionismo.
A divisão foi decidida por plebiscito?
Não. A criação ocorreu por lei complementar federal durante o regime militar, após estudos e articulação regional. Havia uma tradição divisionista e apoio de setores do sul, mas não houve plebiscito estadual que medisse opinião popular no momento da decisão.
Quem criou Mato Grosso do Sul: os divisionistas ou Ernesto Geisel?
A pergunta pede uma resposta combinada. Movimentos e lideranças regionais construíram a demanda por décadas; o Congresso aprovou e Geisel sancionou a lei dentro de uma estratégia federal do regime militar. Sem a trajetória regional, a decisão seria improvável; sem o poder federal de 1977, a demanda não teria virado estado naquele momento.
O Pantanal ocupa todo Mato Grosso do Sul?
Não. O Pantanal está sobretudo no oeste. Grandes áreas estaduais pertencem ao Cerrado e, no sul/sudeste, à Mata Atlântica e a zonas de transição. A imagem pantaneira é central, mas não representa sozinha a geografia estadual.
Todo o Pantanal é Patrimônio Mundial da Unesco?
Não. Existem designações diferentes. A Reserva da Biosfera do Pantanal abrange uma área muito ampla e transnacional; o sítio do Patrimônio Mundial “Área de Conservação do Pantanal” tem limites específicos. Não se deve estender o segundo título a todo o bioma.
Os povos indígenas chegaram depois ou foram trazidos para reservas?
Não como regra. Povos indígenas ocupavam a região muito antes da fronteira e do estado. Muitas reservas foram criadas sobre pequenas parcelas para concentrar comunidades e liberar o restante à colonização. Existem deslocamentos históricos, como em qualquer sociedade, mas a presença indígena não é produto das reservas.
O tereré de Mato Grosso do Sul é patrimônio da Unesco?
A Unesco inscreveu em 2020 as práticas e conhecimentos tradicionais do tereré com pohã ñana em candidatura apresentada pelo Paraguai. O tereré é patrimônio cultural e cotidiano de Mato Grosso do Sul, com raízes guarani e circulação fronteiriça, mas a formulação correta não atribui automaticamente a inscrição internacional a toda prática brasileira.
A Rota Bioceânica já estava aberta em julho de 2026?
Não. Em 24 de julho, as duas partes do tabuleiro da ponte sobre o rio Paraguai se uniram fisicamente. Ainda eram necessários acabamentos, acessos, instalações aduaneiras, testes e coordenação internacional antes da operação plena. “Ponte conectada” e “corredor aberto” são etapas distintas.
30. Conclusão: a história como responsabilidade pública
Mato Grosso do Sul é jovem como estado e antigo como território humano. Sua fronteira foi construída antes de ser desenhada; seus rios transportaram povos antes de transportar mercadorias; suas cidades nasceram de fortes, portos, pousos, estações e colônias; sua economia cresceu convertendo paisagens e reorganizando trabalho. Nenhuma data única contém essa experiência.
A divisão de 1977 realizou uma aspiração regional e um projeto do regime militar. A autonomia aproximou instituições e impulsionou Campo Grande, universidades, infraestrutura e representação. Também abriu uma arena de poder que não resolveu, por si só, concentração de terra, desigualdade racial, conflitos indígenas ou desequilíbrio entre capital e interior.
Em 2026, celulose, bioenergia e a Rota Bioceânica anunciam outra fase de integração. Ela guarda semelhança com ciclos anteriores: promessa de encurtar distâncias, atrair capital e “ocupar” o território. A lição histórica não é rejeitar transformação, mas perguntar antecipadamente quem decide, quem trabalha, quem recebe benefícios e quem suporta custos.
Conhecer a história inteira oferece um antídoto contra dois extremos. O primeiro é a celebração vazia, que transforma progresso em destino e oculta violência. O segundo é o pessimismo que enxerga apenas conflito e ignora criatividade, cooperação e conquistas sociais. Mato Grosso do Sul foi feito por relações assimétricas, mas também por capacidade persistente de recomeçar.
O estado criado em 1977 ainda está sendo criado todos os dias: nas aldeias e universidades, nos rios e indústrias, nas fronteiras e cidades, na disputa por memória e no direito de diferentes povos contarem a própria história.
Quando a ponte de Porto Murtinho encontrou o lado paraguaio em julho de 2026, uma imagem resumiu séculos: duas margens ligadas sobre o mesmo rio que já foi caminho indígena, linha de impérios, teatro de guerra e corredor comercial. A ponte só será histórica em sentido pleno se a integração que ela simboliza aprender com tudo o que veio antes.
Fontes, documentos e metodologia
Critério editorial. A pesquisa priorizou legislação, IBGE, Iphan, Funai, universidades, livros acadêmicos de acesso aberto e órgãos públicos. Reportagens foram usadas para acontecimentos recentes ou cronologias, sempre diferenciadas de produção historiográfica. Datas e dados foram conferidos até 28 de julho de 2026. A lista não pretende esgotar a bibliografia; oferece trilha verificável para leitores e futuras atualizações.
- Brasil. Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977. Cria Mato Grosso do Sul e regula instalação, patrimônio e transição.
- Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. História da Assembleia Legislativa. Instalação em 1º de janeiro de 1979, constituinte e primeiros poderes.
- IBGE. Mato Grosso do Sul — Cidades e Estados. Área, população, densidade, gentílico e indicadores oficiais.
- Chamorro, Graciela; Combès, Isabelle (org.). Povos indígenas em Mato Grosso do Sul: história, cultura e transformações sociais. Editora UFGD, obra coletiva de acesso aberto.
- Schmitz, Pedro Ignácio e outros. Arqueologia dos aterros indígenas do Pantanal. Datações e ocupação antiga associada ao ambiente pantaneiro.
- IBGE. Censo 2022: população indígena; e Brasil Indígena.
- Funai. Estudo sobre o povo Kinikinau. Biblioteca Digital da Funai.
- Instituto Socioambiental. Guató — Povos Indígenas no Brasil. Território, história e organização social.
- Revista de Antropologia/Scielo. Estudo de longa duração sobre Itatim e populações indígenas.
- Universidade Federal da Grande Dourados. Pesquisa sobre monções e o varadouro de Camapuã.
- IBGE Biblioteca. Corumbá — histórico municipal e Miranda — histórico municipal.
- Page, Thomas Jefferson. La Plata, the Argentine Confederation, and Paraguay, 1859. Gravura do Forte de Coimbra em domínio público.
- IPHAN. Publicação sobre arqueologia e patrimônio em Mato Grosso do Sul.
- Topoi/Scielo. Batismo e compadrio de escravizados em Albuquerque, 1836–1862.
- Fronteiras — Revista de História/UFGD. Historiografia da escravidão no sul de Mato Grosso.
- Taunay, Alfredo d’Escragnolle. A Retirada da Laguna, edição de 1874. Fonte histórica em domínio público.
- Revista Brasileira de História/Scielo. Estudo sobre comércio e sociedade de Corumbá no pós-guerra.
- Fronteiras — Revista de História/UFGD. Companhia Mate Laranjeira, concessões e fronteira.
- Varia Historia/Scielo. Trabalho, dívida e formas de coerção nos ervais.
- Estudos Econômicos/Scielo. Formação econômica de Mato Grosso do Sul.
- IPHAN. Patrimônio material em Mato Grosso do Sul. Complexo ferroviário e bens tombados.
- Fronteiras — Revista de História/UFGD. Colônia Agrícola Nacional de Dourados e Marcha para o Oeste.
- Município de Fátima do Sul. História do município e Decreto-Lei nº 5.941/1943.
- Editora UFGD. Estudos sobre 1932, Maracaju e memória política regional.
- Presidência da República, 1977. A divisão de Mato Grosso. Estudo oficial que fundamentou a proposta.
- Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Constituição do Estado de Mato Grosso do Sul de 1989.
- Fundação de Cultura de MS. História e documentação dos símbolos estaduais.
- Capital News. Cronologia dos governadores e interinatos; conferida com a história institucional da Assembleia.
- Assembleia Legislativa de MS. Wilson Barbosa Martins e a primeira eleição direta estadual.
- Semadesc. Perfil Estatístico de Mato Grosso do Sul 2025.
- IBGE. PIB cresceu em todos os estados em 2023. Variação real de 13,4% em Mato Grosso do Sul.
- Governo de Mato Grosso do Sul. Indústria de transformação e nova matriz produtiva, 2026. Fonte governamental, usada como posição oficial.
- IBGE. Estimativas da população para 2025 publicadas no Diário Oficial.
- IBGE. PNAD Contínua Trimestral. Referência para mercado de trabalho; consultar a tabela atual na republicação.
- IPHAN. Banho de São João de Corumbá e Ladário reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil.
- IPHAN. Patrimônio imaterial de Mato Grosso do Sul. Viola de cocho e outros bens registrados.
- Subsecretaria de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial de MS. Mapa dos quilombos em Mato Grosso do Sul.
- Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Pesquisa sobre imigração okinawana e o sobá em Campo Grande.
- Brasil. Lei nº 6.674, de 5 de julho de 1979. Cria a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
- Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Linha do tempo institucional. Previsão constitucional, implantação em 1993 e expansão.
- Universidade Federal da Grande Dourados. História institucional e Lei nº 11.153/2005.
- IPHAN. Superintendência do Iphan em Mato Grosso do Sul. Inventários, tombamentos e registros.
- Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul. Informações oficiais sobre Bonito e turismo estadual. Dados promocionais lidos como fonte institucional, não como avaliação independente.
- Ministério do Meio Ambiente. Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Pantanal. Série e área queimada de 2020.
- Corpo de Bombeiros Militar de MS. Balanço da Operação Pantanal 2024; Governo de MS. Balanço de 2025.
- Unesco. Pantanal Biosphere Reserve e incêndios na ecorregião. Contexto e extensão da designação.
- Prefeitura de Porto Murtinho. Ligação física da ponte da Rota Bioceânica, 24 de julho de 2026.
- Governo de Mato Grosso do Sul. Cronograma e execução da ponte binacional. Previsão sujeita à evolução das obras.
- Brasil. Decreto-Lei nº 5.812, de 13 de setembro de 1943. Cria os territórios federais do Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta Porã e Iguaçu.
Créditos visuais. Todas as imagens incorporadas nesta edição estão em domínio público ou possuem licença/permissão de reutilização identificada nas legendas. O link em cada imagem leva à página do arquivo e aos termos completos. Recomenda-se hospedar cópias no próprio site antes da publicação, mantendo crédito, licença e link de origem. Não foram usadas imagens geradas por inteligência artificial para representar fatos históricos.
Atualizações futuras. Para manter o título “Atualizada 2026” confiável, preserve esta data de fechamento. Se dados, ocupantes de cargos, cronogramas da Rota Bioceânica ou estimativas populacionais mudarem, altere a data de atualização e registre a mudança. Não reescreva acontecimentos futuros como se já fossem conhecidos em 28 de julho de 2026.
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