Fwd: Memória e identidade fortalecem a mobilização de mulheres em Furnas da Boa Sorte

Jogo reúne memória de mulheres quilombolas em Corguinho

Um jogo criado a partir das memórias e dos saberes da Comunidade Quilombola Furnas da Boa Sorte, em Corguinho (MS), passou a reunir histórias do território, práticas tradicionais e questões ambientais. A iniciativa surgiu de oficinas realizadas com mulheres coletoras de sementes pelo WWF-Brasil e pela Rede de Sementes Flor do Cerrado.

As atividades utilizaram a Pedagogia Griô, metodologia baseada na oralidade, nos saberes ancestrais e nas experiências vividas pelas comunidades. Durante os encontros, as participantes elaboraram mapas afetivos, compartilharam lembranças e identificaram lugares, personagens, árvores matrizes e acontecimentos importantes para a história local.

O material produzido deu origem ao jogo Trilha Griô Furnas da Boa Sorte. As mulheres participaram da criação do mapa, dos temas e das perguntas. A equipe da Casa Moringa, responsável pela facilitação das oficinas, fez a produção artesanal do tabuleiro, das peças e das cartas.

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Jogo aborda história e questões ambientais

As perguntas e os desafios da atividade tratam de saberes e ofícios tradicionais, espaços de trabalho e convivência, espécies nativas, racismo, relações de gênero, conflitos territoriais e invisibilização dos povos indígenas. A proposta foi organizar os temas sociais, culturais e ambientais de forma lúdica.

Entre as lembranças recuperadas pelas participantes está a do rio da comunidade, onde elas brincavam, pescavam e conviviam durante a infância. Atualmente, o curso d’água está seco. Segundo o relato apresentado nas oficinas, a comunidade relaciona a situação ao desmatamento no entorno das nascentes e a intervenções em propriedades rurais da região.

A representação do rio no jogo também abriu discussões sobre assoreamento e possibilidades de recuperação do curso d’água. De acordo com Luciana Meireles, da Casa Moringa, as conversas aproximaram as memórias afetivas das questões ambientais enfrentadas no território.

Oficinas estimularam ações comunitárias

A mobilização começou antes da conclusão do jogo. No primeiro encontro, as mulheres fizeram uma “árvore dos sonhos” com desejos pessoais e coletivos. Entre os objetivos estava a retomada da construção do galpão comunitário, que estava paralisada havia mais de cinco anos.

No retorno das educadoras para o segundo ciclo de atividades, a comunidade participava de um mutirão para concluir o telhado e o piso do espaço. As mulheres também haviam retomado uma feira da associação comunitária, que não era realizada havia cerca de dois ou três anos.

As rodas de conversa ainda recuperaram a memória de uma parteira que reunia mulheres para mutirões e encontros de contação de histórias. Para as educadoras, a lembrança indicou que as práticas coletivas já faziam parte das experiências da comunidade e foram retomadas nas atividades.

Coleta de sementes e restauração

O núcleo coletor da Rede de Sementes Flor do Cerrado em Furnas da Boa Sorte é formado por 23 pessoas. A principal atividade produtiva é a coleta de sementes nativas. O trabalho do WWF-Brasil com a coleta no território começou em 2018 e foi retomado em 2022, em parceria com o Instituto Taquari Vivo (ITV) e a ARCP.

Entre as ações desenvolvidas está a identificação e a marcação de árvores matrizes, com apoio à identificação, à coleta e à rastreabilidade das sementes comercializadas pela rede. Os insumos são destinados a projetos de restauração do Cerrado.

Segundo o WWF-Brasil, as atividades também incluem gestão financeira, técnicas de coleta e armazenamento de sementes, salvaguardas socioambientais e fortalecimento de lideranças femininas. A organização afirma que a participação das mulheres está relacionada à coleta e ao beneficiamento de sementes, à conservação da biodiversidade e à transmissão de conhecimentos sobre o território.