A Fazenda Alvorada, localizada no distrito de Garcias, em Três Lagoas, exemplifica as transformações econômicas no leste de Mato Grosso do Sul. Anteriormente voltada para a pecuária e exploração de água mineral, a propriedade agora destina a maior parte de sua área ao cultivo de eucalipto.
Hélcio Kamano, o proprietário de 65 anos, descobriu uma fonte de água mineral em 1998, que resultou na criação da Água Labor, fornecendo para municípios de MS e SP até 2010, quando a nascente secou. Kamano associa a seca às mudanças ambientais provocadas pela expansão florestal, embora essa relação não tenha comprovação científica.
Desde 2005, a Fazenda Alvorada começou a arrendar 290 dos seus 490 hectares à Eldorado Brasil, gerando uma renda líquida mensal de cerca de R$ 24 mil, após impostos. Essa situação reflete uma contradição, visto que a atividade que lhe proporciona renda é a mesma que ele critica por suas consequências ambientais.
Evolução da Economia Rural
Historicamente, a economia rural na região era baseada na criação extensiva de gado. Contudo, com a instalação de fábricas de celulose e a crescente demanda por madeira, muitas propriedades anteriormente dedicadas à pecuária passaram a ser arrendadas ou integradas a contratos de parceria florestal.
Esse modelo permite que os proprietários evitem os custos e riscos da produção, recebendo pagamentos da empresa responsável pelo plantio e manejo do eucalipto. Essa mudança não apenas valorizou as terras, mas também proporcionou uma nova fonte de renda para os fazendeiros, embora tenha reduzido a presença de trabalhadores nas áreas rurais.
Expansão da Indústria Florestal
Uma pesquisa de doutorado do geógrafo Joser Cleyton Neves, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), analisa como os contratos florestais possibilitaram a rápida expansão da indústria. Empresas como Suzano e Eldorado exploram juntas cerca de 1,25 milhão de hectares, incluindo terrenos arrendados e parcerias, sem a necessidade de aquisição definitiva.
Entre 2020 e 2023, essas companhias registraram R$ 5,14 bilhões em despesas com arrendamentos, com a Suzano respondendo por R$ 4,09 bilhões. Apesar de a cadeia florestal gerar recursos para proprietários rurais, a concentração fundiária mantém os maiores contratos nas mãos de um pequeno grupo.
Cenário Atual e Futuro
Antes da chegada das fábricas, a estrutura agrária do leste de MS já era concentrada. Propriedades com mais de mil hectares correspondem a 13,9% dos estabelecimentos, ocupando 75,8% da área. Essa configuração facilitou a rápida expansão da base florestal através de negociações com grandes proprietários.
Dados apontam que a área plantada em Mato Grosso do Sul saltou de 341 mil hectares em 2010 para mais de 1,6 milhão em 2024. O governo estadual afirma que essa expansão ocorre principalmente sobre pastagens degradadas, enquanto o setor florestal representa 17,8% do PIB industrial e gera cerca de 27 mil empregos diretos e indiretos.
Mais Informações
Para saber mais sobre o impacto do arrendamento de eucalipto na região, consulte os dados divulgados pela Semadesc.
Links e documentos citados
Fonte: atualizams.com.br

